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O CULTO DOS CABOCLOS AFRICANOS NA UMBANDA

 

 

Por Edmundo Pellizari

 

 

Companheiros espirituais ainda pouco conhecidos na Umbanda, os Caboclos Africanos são entidades fortes, fiéis e muito alegres. 

 

Eles vieram das profundas selvas africanas, do dos antigos quilombos brasileiros e das distantes ilhas do Caribe.

 

Quando chegam no terreiro soltam seus gritos de guerra: “Huia!”, “Hu­huia!”, “Hui!”.  Gostam de trabalhar com bom charuto, cachimbo, pembas coloridas e ervas medicinais.  Sentam-se no chão, olham fundo nos olhos dos consulentes, cumprimentam com força e passam muita confiança.

 

A maioria destes espíritos apresenta influências bantu na linguagem, roupagem e modos.  A sensação é que estamos falando com um Preto Velho, mas sem a presença do banquinho e das palavras doces.  Os Caboclos Africanos usam linguagem mais firme, expressões mais coloridas e palavras menos simbólicas.  Vão direto ao assunto. 

 

Pai Manuel da Serraria, velho umbandista e juremeiro, dizia com seu humor habitual:

 

- “Esses caboclos parecem uma mistura de exu, caboclo e preto velho mandingueiro tudo junto. Que gente grande essa...

 

Excelentes combatentes, guerreiros do Axé e da luz, muito invocados para desmanchar demandas e feitiços. Eles conhecem os mistérios da ciência da Mpemba (pemba) e dos encantamentos do Mpolo Mpemba (pó de pemba), que utilizam no corte das energias negativas com muita destreza. Também usam fubá de milho, carvão, farinha e café para de­senhar seus sig­nos mágicos no chão. Nas giras não dispensam a fabricação de patuás, amuletos e outras mandingas de tradição para ajudar os necessitados.

 

Costumam dividir-se espiritualmente em sólidas famílias ou clãs como na Mãe África.  A mais conhecida é a dos “Arranca”, grupo arredio de luta­dores das matas, que literalmente arrancam as mazelas e miasmas astrais dos lugares e pessoas. 

 

Seus integrantes mais conhecidos são: Arranca-Toco, Arranca-Cruzeiro, Arranca-Pemba, Arranca-Estrela, Arranca-Caveira, Arranca-Pimenta, Arranca-Cobra, Arranca-Feitiço, Arranca-Calunga, Arranca-Sepultura, Arranca-Folhas e Arranca-Dificuldade. 

 

Esta família é predominantemente masculina e não devemos confundir os “Arranca” Africanos com seus irmãos nativos brasileiros que também possuem o nome arranca (Caboclo Arranca-Toco, por exemplo).

 

A magia dos felinos está bem representada na pessoa do poderoso Pantera Negra Africano (parente espiritual do Caboclo Pantera Negra, um tradicional caboclo de Umbanda) e sua Falange.  Outros caboclos africanos trabalham sob o glorioso estandarte da Família Malê, levantado bem alto a espada da vitória e cortando a cabeça do dragão da escravidão (moral, espiritual e material), como os Africanos Mussurumi, Lele Mussurumi e Assumano.

 

Na Família dos guerreiros Congos e Angolas estão os Africanos: Azambuja, Calungueiro, Macalé, Mezala e Zambará. A chefia da tropa está sob a liderança de Pai Simão Africano, como dizem os mais velhos.

 

As Caboclas Africanas são autênticas amazonas.  Mulheres que lutavam com facão, lança e porrete ao lado dos homens. As mais famosas, que ainda baixam nas giras, são: Africana Rosa, Africana Maria, Africana Rosária e Africana Matamba. Detalhe interessante: o culto aos Caboclos Africanos é mais popular no sul do Brasil, Argentina e Uruguai, regiões que receberam grande influência da cultura do negro bantu.  Terreiros de Umbanda Cruzada do Rio Grande do Sul, que trabalham com a tradição do Batuque, conhecem bastante as mirongas destas entidades.

 

Liturgia: Cores simbólicas (para velas, panos e toalhas de oferendas): vermelho, branco, preto e roxo (possuem bastante influência dos Orixás Ogum, Omulu e Obaluaiê). 

 

Guias: predominantemente de sementes e dentes de animais ou nas cores acima mencionadas.

 

Comidas e oferendas típicas: feijoada, ovos cozidos e tempera­dos com pimenta branca, bananas, laran­jas e outras frutas doces. Tabacos fortes (charuto e fumo de corda), marafo, Bomba (marafo com pólvora, pimenta malagueta e pó de pemba). Observação: a Bomba não se bebe, se oferenda!, marafo ou vinho tinto preparado ervas medicinais e vinho branco.

 

Acessórios de gira: costumam vestir, sempre que o Terreiro permite, chapéu de palha, lenços no pescoço, colares (guias de trabalho) e lenços na cabeça (africanas).

 

 

PONTOS DE CHAMADA DA LINHA:
 
 
Na linha de africano
 Ninguém pode atravessar.
 Ô segura a pemba ê ê,
 Ô segura a pemba ê á,
 Ô segura a pemba ê ê,
 Ô segura a pemba no congá.
 A bananeira que plantei na meia-noite
 Tinha seu toco na beira do terreiro.
 Eu quero ver africano firmar ponto,
 Eu quero ver africano feiticeiro!
 Aí vem Jesus navegando no mar,
 É o Povo Africano que vem trabalhar.
 
 PONTO DE LOUVAÇÃO DA LINHA


 
O meu pai vem baixando de Aruanda
 Para saravá os filhos da Umbanda.
 Ele é Africano, ele é feiticeiro,
 Vem trabalhar em nosso terreiro!
  
  
 PONTO GERAL DE CABOCLO AFRICANO*
  
 
No mato tem um toco
 Queimado por um raio,
 Sou caboclo africano,
 Bambeio, bambeio
 Mas não caio!
  
 CUIDADO SINHÁ*


 
Cuidado sinhá menina,
 Por onde pisa no mato,
 Caboclo africano avisa
 Pra tomar muito cuidado!
  
 PONTO DE DESPEDIDA


 
África lhe chama,
 Africano vai embora,
 Vai com Deus,
 E nossa Senhora!
 (* Pontos de Caboclo Africano na
 Linha Boi do Mato, Macaya
 de Santo Antônio da Jurema).


 

 

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