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ZÉ PELINTRA

 

 

Leni W.Saviscki

 

“Aquele médium havia chegado a pouco na corrente, chamado que foi através da dor. Estudava os primeiros passos do desenvolvimento mediúnico, sentindo-se um tanto deslocado diante dos companheiros que, com a maior desenvoltura, trabalhavam com seus guias. Seu coração, embora sofrido, irradiava amor e a seu jeito, prestava ali a caridade. Os dias passavam e naquela gira de preto velho ele sentiu uma vibração forte a envolvê-lo já na abertura do trabalho. Lembrou de seu sonho na noite anterior onde se via dançando em local iluminado pela lua cheia, ao som das palmas de uma multidão vestida de branco.

 

Tudo corria normal, até quando foi abordado pelo dirigente do Templo, pedindo que ele se dirigisse em frente ao congá e elevasse o seu pensamento aos guias espirituais, pois havia uma entidade que precisava trabalhar ali naquela noite e o escolhera como aparelho.

 

Um sorriso maroto, uma alegria estampada no olhar e seus pés deslizavam numa dança compassada que lembrava um exímio mestre-sala dos carnavais cariocas. Sua maneira de saudar o congá e o dirigente foi uma reverência respeitosa, mas totalmente diferenciada dos demais espíritos que ali chegavam para trabalhar.

 

Com total desenvoltura a entidade conduzia seu aparelho mediúnico e naquela dança alegre, andou pelo terreiro sendo saudado pelos pretos velhos que em seus tocos trabalhavam na caridade.  E auxiliou aos mesmos nas magias necessárias ao bom andamento dos atendimentos, socorreu e amparou com seriedade, sem no entanto, perder a graça de seus gestos descontraídos e a alegria de quem é feliz naquilo que faz, característica dessa corrente de trabalho do astral.

 

No final dos trabalhos, com a permissão do dirigente, apresentou-se à corrente mediúnica, reverenciando-os:

-Boa noite aos amigos. Este que vos cumprimenta é Zé Pilintra que a partir de hoje, com as ordens de quem vos dirige no plano espiritual, integra-se a essa corrente de trabalho, para vos auxiliar na caridade.

Olhos arregalados demonstravam o nítido preconceito existente em alguns médiuns que por “achismos” e não por conhecimento, abonavam a figura desta entidade que para eles era mitológica.

Captando essa energia, a entidade sorriu divertida e cantando um ponto que trazia consigo, pediu que o acompanhassem com palmas e um sorriso no rosto, pois o azedume e o julgamento não fazem parte do bom trabalho na caridade e nem combina com a Umbanda.

 “Seu Zé Pilintra, onde é que o senhor mora

Seu Zé Pilintra, onde é sua morada

Eu não posso lhe dizer

Porque você não vai compreender...ê..ê

Eu nasci no Juremá

Minha morada é bem pertinho de Oxalá”

 

Agora mais sério, explicava para os médiuns:

-Sou um daqueles espíritos expulsos de alguns lugares como demônio e em outros, tratado como obsessor, quando observado pelos médiuns videntes, e visto que não possui a aparência desejada para ser considerado um “irmão de luz”. Fui, como tantos outros espíritos, um pecador que se endividou diante das leis maiores. Hoje, acolhido amorosamente pela Umbanda, graças à bondade divina, após razoável temporada de esgotamento energético nos locais adequados do plano espiritual. Portanto não sou “de luz”, mas optei “pela luz”. Não sou santo e minha história de vida enquanto encarnado não é um bom exemplo, mas estou retornando ao caminho.

Se sou um Exu? Por que me fiz presente durante a gira de preto velho? Zé Pilintra é malandro dos morros do Rio de Janeiro? Enquanto se discutem esse tipo de coisa, se perde tempo e tempo é precioso quando o trabalho nos aguarda.

Estou trabalhando na falange a qual fui atraído energeticamente e assim como nem todo preto velho obrigatoriamente foi um dia escravo, nem todo espírito que se apresenta como Zé Pilintra foi malandro de morro. Atuamos no mundo físico com as características da falange a que pertencemos, para melhor identificação o que evidentemente não é importante. O objetivo de nossa atuação, ou seja a caridade lenitiva, essa sim é importante.

Para muitos, Zé Pilintra é considerado pertencente ao “povo da rua”- espíritos identificados como “ocasionais”  trabalhadores da luz. Entendimentos diferenciados à parte, eu lhes digo que nomes são apenas importantes enquanto estamos encarnados e esse que aqui está como Zé Pilintra não se transformou após a morte, apenas mudou o foco e a visão da vida. Sempre fui uma pessoa alegre, descontraída e brincalhona, mesmo nos momentos mais difíceis e talvez por isso adeqüei-me a este trabalho. Não sou alcoólatra nem mulherengo como tentam formatar todos os “Zés” e por isso lhes peço respeito, bem como vosso carinho.

Sorrindo, reverenciou a todos, saudou o congá e subiu, deixando no ar uma contagiante alegria.

“Agora pra sua banda vai subir...

Meu Deus ele já vai embora...

Boa noite meu senhor

Boa noite minha senhora”.

  Erechim, RS, março/2008


 

 

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